Amor e saber na experiência analítica

Bruna Pinto Martins Brito, Vera Lopes Besset

Resumo


A oferta da construção de um saber sobre si e seu sofrimento
marca a peculiaridade da proposta da psicanálise. Assim, no início
do século XX, o jovem oficial que mais tarde ficou conhecido
como ‘O homem dos ratos’ procurou Freud porque vislumbrou
esclarecimentos para seus estranhos pensamentos em um livro
desse autor. Em princípio, é porque ‘quer saber’ o que lhe faz sofrer que um sujeito procura um analista. Desde os primórdios da clínica
psicanalítica, a especificidade da concepção de saber é marcada
por sua relação com o inconsciente. É que se pode vislumbrar
mesmo na escolha do termo alemão Unbewusst, que aponta
para um ‘saber que não se sabe’ para designar o inconsciente.
Avançando nessa vertente, Lacan apresenta o inconsciente
freudiano como ‘inteiramente redutível a um saber’. Esse saber,
particular, próprio a cada um, inalienável, deve ser construído
em cada caso. Todavia, nos dias atuais, essa proposta entra em
desarmonia com a de um saber ‘universal’, ‘para todos’, prometido
pela ciência. No que concerne o sofrimento psíquico, tal saber é
colocado à disposição do público por especialistas que promovem
avaliações padronizadas, anulando aquilo o que é próprio a cada
um. Na contramão dessa corrente, a psicanálise abre mão dos
questionários e manuais, instrumentos da avaliação. Então, como,
a partir dela, ter acesso ao saber? Essa é a questão que norteia
este artigo. Para tal, seguiremos a indicação freudiana de que
esse acesso se faz pela via do amor, amor transferencial, confiança
depositada no analista. Pela transferência, o analista se encontra na
posição de saber suposto. Isso permite àquele que fala se interessar
por saber. Todavia, frente à configuração da cultura atual, em uma
época regida pela desconfiança, interessa-nos refletir sobre os
obstáculos no caminho do estabelecimento desta experiência.

Palavras-chave


tratamento analítico, saber, amor, transferência, contemporaneidade.

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DOI: http://dx.doi.org/10.5020/23590777.8.3.681-703

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Revista Subjetividades, Fortaleza - Ceará- Brasil – E-ISSN: 2359-0777

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