Depressão Pós-parto para além do Diagnóstico: Representações Sociais e Subjetividade

Rafaella Pinheiro Cesario, Daniel Magalhães Goulart

Resumo


Este artigo tem como objetivo apresentar reflexões teóricas acerca dos processos subjetivos de uma mulher diagnosticada com depressão pós-parto. Ele se insere em uma busca por romper com a visão reducionista da depressão pós-parto, calcada no modelo biomédico, que a reduz a seus aspectos biológicos-sintomatológicos, resgatando as dimensões sociais, histórico-políticas e singulares, frequentemente preteridas, presentes em sua construção. Para isto, utilizou-se da teoria da subjetividade de González Rey, em uma perspectiva histórico-cultural, em um diálogo com a teoria das representações sociais e autores críticos ao modelo biomédico, como Foucault e Illich. O controle por normas exercido na biopolítica, assim como o controle pelo diagnóstico resultante da medicalização da vida, configuram-se enquanto elementos importantes para refletir acerca da produção subjetiva da depressão pós-parto. Foi feito um estudo de caso, a partir de uma perspectiva qualitativa de base construtivo-interpretativa. No processo de construção de informação, discutimos que a depressão pós-parto expressa a disparidade entre a maternidade idealizada socialmente e aquela subjetivamente produzida de forma singular. Assim, a depressão pós-parto é uma produção subjetiva complexa que, para além de apenas aspectos biológicos e hormonais, é configurada pela subjetividade individual da puérpera em questão, e pela subjetividade social marcada pelo discurso médico e a medicalização da vida, que padronizam as experiências socialmente aceitáveis de maternidade e patologizam as demais, gerando frequentes quadros de frustração e culpa. Ademais, argumentamos que os modelos de assistência atualmente prestados, que partem de protocolos rígidos e que têm a norma como referência, não oportunizam uma reflexão crítica que viabilize o desenvolvimento de recursos subjetivos frente a essa experiência.  Desse modo, defende-se a necessidade de espaços que acolham as experiências das puérperas de maneira a oportunizar a reflexão crítica acerca dos aspectos envolvidos na construção subjetiva singular da depressão pós-parto; viabilizando, assim, o desenvolvimento de recursos subjetivos.

Palavras-chave


depressão pós-parto; maternidade; subjetividade; representações sociais.

Texto completo:

PDF/A

Referências


Abuljanova, K. (1980). El sujeito de la actividad psíquica. Cidade do México: Roca.

Arrais, A. (2005). As configurações subjetivas da depressão pós-parto: Para além da padronização patologizante. Tese de Doutorado, Programa de Pós graduação em Psicologia Clínica e Cultura, Universidade de Brasília, Brasília.

Ariés, P. (1978). História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro: Editora Zabar.

Badinter, E. (1985).Um amor conquistado: O mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

Beck, C. T. (2002). Revision of the postpartum depression predictors inventory. Journal Obstetric Gynecology Neonatal Nursing, 31(4), 394-402.

Bozhovich, L. I. (1968). La personalidad y su formación en la edad infantile. Habana, Cuba: Pueblo y Educación.

Cadoná, E., & Strey, M. (2014). A produção da maternidade nos discursos de incentivo à amamentação. Estudos Feministas, Florianópolis, 22(2), 304.

Canguilhem, G. (2002). O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Forense Universitária.

Chandran, M., Tharyan, P., Muliyil, J., & Abraham, S. (2002). Post-partum depression in a cohort of women from rural area of Tamil Nadu, India: Incidence and risk factors. The British Journal of Psychiatry,181(6), 499-504.

Cardoso, H. R., Jr. (2005). Para que serve uma subjetividade? Foucault, tempo e corpo. Psicologia: Reflexão e Crítica, 78(3), 343-349. Doi: 10. 1590/S0102-97220050003000008

Costa, J. M., & Goulart, D. M. (2015). A saúde humana como produção subjetiva: Aproximando clínica e cultura. Psicologia & Sociedade, 27(1), 240-242.

Chudnovsky, V. E. (1988). Problema subjectivnosti v svete sobremennyx zadach psikjologii vospitaniya. Vorpocy psikjologii, 4, 15-24.

Foucault, M. (1980). A microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal.

Foucault, M. (2004). Naissance de la biopolitique. Paris: Gallimard - Seuil.

Furtado, O. (2007). O psiquismo e a subjetividade social. In A. M. M. Bock, M. G. M. Gonçalvez & O. Furtado (Orgs.), Psicologia sócio-histórica: Uma perspectiva crítica em psicologia (3a ed., pp. 75-93). São Paulo: Cortez.

Goffman, E. (2001). Manicômios, prisões e conventos. São Paulo: Editora Perspectiva.

González Rey, F. (1997). Epistemologia cualitativa: Sus implicaciones metodológicas. Psicologia Revista, (5), 13-32.

González Rey, F. (2003). Sujeito e subjetividade: Uma aproximação histórico-cultural. São Paulo: Thomson Learning.

González Rey, F. (2004). Personalidade, saúde e modo de vida. São Paulo: Thomson.

González Rey, F. (2005). Pesquisa qualitativa e subjetiva: Os processos de construção da informação. São Paulo: Thomson.

González Rey, F. (2007). Psicoterapia, subjetividade e pós-modernidade. Uma aproximação histórico-cultural. São Paulo: Thomson Learning.

González Rey, F. (2008). Subjetividad social, sujeto y representaciones sociales. Diversitas, 4(2), 225-243.

González Rey, F. (2009). Epistemología y ontología: Un debate necesario para la psicología hoy. Diversitas, 5(2), 205-224.

González Rey, F. (2011). Subjetividade e saúde: Superando a clínica da patologia. São Paulo: Cortez.

González Rey, F. (2015). A new path for the discussion of social representations: Advancing the topic of subjectivity from a cultural-historical standpoint. Theory & Psychology, 25(4), 494-512.

González Rey, F. (2016). Advancing the topics of social reality, culture, and subjectivity from a cultural-historical standpoint: Moments, paths, and contradictions. Journal of Theoretical and Philosophical Psychology, 36(3), 175-189.

González Rey, F., Goulart, D. M., & Bezerra, M. S. (2016). Ação profissional e subjetividade: Para além do conceito de intervenção profissional na psicologia. Revista Educação (PUCRS. Online), 39(supl.), 54-65.

Goulart, D. M. (2017). Educação, saúde mental e desenvolvimento subjetivo: Da patologização da vida à ética do sujeito. Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade de Brasília, Brasília.

Goulart, D. M., & González Rey, F. (2016). Mental health care and educational actions: From institutional exclusion to subjective development. European Journal of Psychotherapy & Counselling, 18(4), 367-383. doi:10.1080/13642537.2016.1260617

Illich, I. (1975). A expropriação da saúde: Nêmesis da medicina. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira.

Lobato, G., Moraes, C., & Rreichenheim, M. E. (2011). Magnitude da depressão pós-parto no Brasil: Uma revisão sistemática. Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil, 11(4), 369-379.

Lomov, B. F. (1978). Kategorii obtscheniya i deyatelnosti v psykjologii. Voprocy Filosofii, 8, 34–47.

Machado, A. M., Almeida, I., & Saraiva, L. F. O. (2009). Rupturas necessárias para uma prática inclusiva. In A. Anache & I. R. Silva (Eds). Educação inclusiva: Experiência profissionais em psicologia (pp.21-36). Brasília: Conselho Federal de Psicologia.

Morin, E. (1983). O problema epistemológico da complexidade. Lisboa: Europa-America.

Moscovici, S. (2003). Representações sociais: Investigações em psicologia social. Petrópolis: Vozes.

Moysés, M. A. A. (2001). A institucionalização invisível – crianças que não aprendem na escola. Campinas: FAPESP/ Mercado de Letras.

Rodrigues, O. M. P. R., & Schiavo, R. A. (2011). Stress na gestação e no puerpério: Uma correlação com a depressão pós-parto. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, 33(9), 252-257.

Rousseau, J. J. (2004). Emílio ou da Educação. São Paulo: Martins Fontes.

Schardosim, J. M., & Heldt, E. P. S. (2011). Escalas de rastreamento para depressão pós-parto: Uma revisão sistemática. Revista Gaúcha de Enfermagem, 32(1), 159-166.

Vasconcelos, M., Zago, L. F., Machado, D. O., & Ross, C. R. (2011). Os limbos felizes da não-identidade: Tensões e implicações. Revista Mal-Estar e Subjetividade, 11(3), 1217-1264.

Vygotsky, L. S. (1987). Thinking and speech. In R. Rieber & A. Carton (Eds.), The collected works of L. S. Vygotsky (Vol. 1, pp. 43–287). New York: Plenum.

Vygotsky, L. S. (2001). Psicologia pedagógica. São Paulo: Martins Fontes.




DOI: http://dx.doi.org/10.5020/23590777.rs.v18i1.6068

Métricas do artigo

Carregando Métricas ...

Metrics powered by PLOS ALM


Licença Creative Commons
Este obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.
Revista Subjetividades, Fortaleza - Ceará- Brasil – E-ISSN: 2359-0777

Desenvolvido por:

Logomarca da Lepidus Tecnologia