Saúde vocal e mhealth: novas alternativas para antigos cenários

Christina Cesar Praça Brasil, Daniele de Araújo Oliveira Carlos, José Eurico Vasconcelos Filho

Resumo


O mundo vivencia a era da comunicação e a saúde é uma das áreas beneficiadas pela inserção de novos recursos na vida das pessoas. Nesse contexto, as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) ocupam lugar de destaque e aplicam-se ao processamento, armazenamento, busca e transmissão de informação em formato digital, trazendo mais velocidade e confiabilidade à troca de informações(1,2). Na área da saúde, as TICs exercem papéis cada vez mais relevantes, estando presentes nas áreas clínica, gerencial, assistencial e de apoio à decisão dos profissionais e gestores.
Nesse cenário, a tecnologia pode influenciar e modificar o modo de viver e de agir das pessoas, inclusive quando estas questões passam pelo contexto da promoção da saúde e do cuidado. Confirma-se, desta forma, a relevância da incorporação das tecnologias na assistência à saúde(3,4). No caso da saúde vocal, implica em um redimensionamento do autocuidado, uma vez que os acometimentos do aparelho fonador fazem parte do universo dos profissionais da voz, destacando-se os professores, sendo esta uma realidade que requer enfrentamento por meio de medidas políticas e tecnológicas, que ofereçam resolubilidade para esse problema tão recorrente.
Um estudo(5) realizado com 351 professoras de escolas municipais do ensino fundamental de Fortaleza, Ceará, mostrou mais da metade delas apresentando mais de seis sintomas vocais, e que, mesmo considerando-se expostas a mais de seis fatores de risco vocal, nunca participaram de programa de saúde vocal, no que convergem outros estudos brasileiros(6,7).
Ressalta-se que, além da escassez de ações educativas em saúde vocal, as políticas públicas brasileiras e a legislação voltadas à saúde do professor são falhas e restritas(8), e, por isso, chama-se atenção para a importância do desenvolvimento de campanhas de comunicação em saúde e em recursos tecnológicos voltados à saúde vocal, no sentido de reforçar a necessidade de cuidar continuamente da voz.
Diante desses dados, acredita-se que a ampliação do conhecimento sobre voz e a utilização de novas estratégias de comunicação possam favorecer o desenvolvimento de um vantajoso trabalho que contribua para a aprendizagem e o bem-estar de cada profissional da voz. Para isso, pode-se lançar mão de diversas tecnologias, dentre as quais se destacam as tecnologias móveis aplicadas à saúde (mHealth).
A área de pesquisa em saúde móvel (mHealth), ramo da saúde eletrônica (eHealth) definido como "o uso de tecnologias de computação e comunicações móveis em cuidados de saúde e de saúde pública", tem estado em constante expansão. As aplicações móveis para a saúde atendem a um público heterogêneo - médicos, enfermeiros, pacientes, cuidadores e pessoas saudáveis(9) - e a fins variados(10), tais como, informações nas diversas áreas da saúde, adesão a tratamento(s) e gestão da doença.
No Brasil, existem poucos estudos que abordam a temática saúde vocal e tecnologia. Contudo, é possível observar a inserção de várias ferramentas no cotidiano dos fonoaudiólogos, as quais lhes dão suporte e são reconhecidas como tipos de tecnologias. Podem ser citados como exemplos cartilhas, softwares, aplicativos informativos e plataformas de Ensino à Distância, todos voltados à saúde vocal, os quais facilitam o trabalho fonoaudiológico, porém, não oferecem interatividade.
A partir dos recursos mencionados, acredita-se que a tecnologia mHealth contribua com a promoção da saúde vocal dos professores, diante do dinamismo e das facilidades que oferece, incluindo as ações que podem ser realizadas a qualquer tempo e lugar, uma vez que as múltiplas atribuições e a falta de tempo levam o professor, muitas vezes, a menosprezar os seus problemas, buscando ajuda somente quando a(s) alteração(ões) vocal(is) já está(ão) instalada(s)(11).
Ante a carência de aplicativos que favoreçam cuidados com a saúde vocal, desenvolveu-se, na Universidade de Fortaleza, por meio de uma parceria entre o Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e o Laboratório de Inovação e Novos Negócios do Núcleo de Aplicação em Tecnologia da Informação (NATI), o aplicativo VoiceGuard, uma ferramenta que propicia o apoio individualizado na gestão do uso da voz. Esse aplicativo apresenta como diferenciais a oferta de uma variedade de recursos para o gerenciamento e o monitoramento amplo e integral da saúde vocal, inclusive em tempo real, favorecendo maior autonomia do professor e a redução dos acometimentos vocais. Acredita-se que esta tecnologia configure como uma importante ferramenta para a promoção e o cuidado com a saúde vocal, sendo um recurso moderno para o enfrentamento de um antigo problema: as alterações vocais dos professores.
A Revista Brasileira em Promoção da Saúde acredita na disseminação deste e de outros produtos inovadores tecnológicos aplicados à saúde e ao bem estar, visto a velocidade das interações científicas em prol do acesso ilimitado à saúde.

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Referências


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DOI: http://dx.doi.org/10.5020/18061230.2017.p1

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Rev Bras Promoç Saúde, Fortaleza - Ceará - Brasil - e-ISSN: 1806-1230

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