A Reorientação das Práticas Ambulatoriais na Saúde Mental Coletiva a partir dos Grupos de Recepção

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5020/23590777.rs.v22i1.e11285

Palavras-chave:

atenção psicossocial, grupos de recepção em saúde mental, análise institucional, psicanálise

Resumo

Partindo da prática em um ambulatório de saúde mental, questionamos os modos de acolhimento tradicionalmente oferecidos às demandas de tratamento psíquico ambulatorial no campo público. Para tal, utilizamos uma análise paradigmática que – pautada na psicanálise, no materialismo histórico e na análise institucional – define o insurgente paradigma psicossocial como superação dialética da reforma psiquiátrica. A psicanálise e o materialismo histórico também foram as bases metodológicas da reflexão epistemológica que realizamos. Assim, suplantando a triagem privatista e medicalizadora do paradigma psiquiátrico dominante, os responsáveis pelos grupos de recepção devem suspender as respostas imediatas visando a uma escuta analítica que implique os sujeitos nos sintomas e conflitos dos quais se queixam. Por fim, destacando o necessário trabalho com as resistências a essas mudanças radicais, concluímos que a implantação dos grupos de recepção tem sido um importante meio de reestruturação dos dispositivos institucionais rumo a outro paradigma de tratamento.

Biografia do Autor

Waldir Perico, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

Psicólogo e Psicanalista. Doutor em Psicanálise pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Membro do Laboratório Transdisciplinar de Intercessão-Pesquisa em Processos de Subjetivação e “Subjetividades Saúde” (UNESP – Campus de Assis).

Doris Luz Rinaldi, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

Psicanalista. Doutora em Antropologia Social pelo Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professora titular do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Membro do GT Psicanálise, Política e Clínica da ANPEPP. Membro do Intersecção Psicanalítica do Brasil.

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Publicado

29.04.2022

Edição

Seção

Relatos de Pesquisa