Está se Constituindo um Novo Paradigma Psiquiátrico?

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Ana Carolina do Rosário Correia
Charles Elias Lang

Resumo

O psiquiatra francês Georges Lantéri-Laura utilizou-se do conceito de “paradigma”, trabalhado por T. S. Kuhn, para dar conta da racionalidade e da história da psicopatologia. No seu Ensaio sobre os paradigmas da psiquiatria moderna, Lantéri-Laura estabeleceu três paradigmas, situados entre o final do século XVIII e o final do século XX. O primeiro paradigma tem em seu centro a ideia de alienação mental. O segundo trabalha com a noção de que existem as doenças mentais. O terceiro vale-se da noção de estrutura e define as grandes estruturas psicopatológicas. Dessa forma, este ensaio teórico teve como ponto de partida a revisão histórica das tradições psiquiátricas realizada por Lantéri-Laura, buscando avançar e incluir as discussões contemporâneas na proposta de defender um quarto paradigma psiquiátrico orientado pelo conceito de síndrome. Nesse estudo é possível identificar duas lógicas psicopatológicas bastante distintas – uma psicanalítica e outra comportamental –, na qual se funda o Diagnostic and statistic manual of mental disorders (DSM), manual da Associação Americana de Psiquiatria (APA). Para tal fez-se necessária a elaboração de um breve contexto da DSM e de suas cinco edições sobre as principais críticas a esse sistema classificatório. Por fim, discute-se o destino do sistema DSM em face dos novos sistemas diagnósticos emergentes e se conclui que a psicopatologia é um campo diacrônico, em que as mudanças e as atualizações são constantes e necessárias.

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Seção
Estudos Teóricos
Biografia do Autor

Ana Carolina do Rosário Correia, Universidade Federal de Alagoas

Mestra em psicologia pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

Charles Elias Lang, Universidade Federal de Alagoas

Doutor em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Professor Permanente no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

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