O Ato como Tratamento para a Devastação Feminina

Cristina Moreira Marcos, Thais Limp Silva

Resumo


Este artigo aborda, a partir da teoria de Jacques Lacan, a devastação feminina como uma consequência da localização da mulher como não-toda na lógica fálica. Interessa aqui demonstrar como um ato pode ser uma possibilidade de tratamento da devastação. Para tanto, faremos referência à peça Medeia, datada de 413 a.C., e ao relato de passe de Holk, publicado no livro intitulado Patu. A proposta lacaniana sobre o feminino utilizada é a formulada a partir de 1971, na qual a partição sexual se dá por meio de dois modos de gozo: gozo fálico, localizado no lado homem, e gozo feminino, localizado no lado mulher. O gozo feminino indica que a mulher é não-toda referida ao falo, o que pode ter como uma de suas consequências a devastação amorosa, que incide sobre o falasser feminino. Sobre o ato, faremos referência às proposições de 1969, nas quais o ato toma a dimensão de uma marca significante, que delimita um novo início para o sujeito: apagado no momento do ato, ele ressurge renovado. Assim, buscamos demonstrar como Medeia pôde sair da devastação na qual se encontrava após ser abandonada por Jasão, por meio do ato de matar os filhos, e como Holk encontra sua solução amorosa ao produzir na análise um novo significante: patu (um significante que cifrava o gozo feminino), estando em jogo aí a dimensão do ato analítico.

Palavras-chave


Ato; devastação; feminino.

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DOI: https://doi.org/10.5020/23590777.rs.v20i3.e10269

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Revista Subjetividades, Fortaleza - Ceará- Brasil – E-ISSN: 2359-0777

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