Banalização do Mal na Contemporaneidade e os Efeitos Necropolíticos na Sociedade Brasileira

Flávia Fernandes de Carvalhaes, Rafael Bianchi Silva, Alexandre Bonetti Lima

Resumo


A sociedade brasileira é atravessada por violências, preconceitos e autoritarismos, materializados em índices de morte e desigualdades sociais que se assemelham a um país em guerra. Os componentes capitais desses índices, invariavelmente, são as populações LGBTI (particularmente transexuais), pobres, indígenas, negros, mulheres, entre outros, que configuram as denominadas minorias sociais. Contemporaneamente, notamos que o autoritarismo, a violência e os preconceitos vêm assumindo materialidade explícita como política do Estado (em seus diferentes níveis de governo), e sendo apoiados por ampla parcela da população. Neste artigo, a partir de uma reflexão teórica, arguimos que tais ocorrências não se iniciam recentemente, mas têm matrizes históricas não devidamente elaboradas pela sociedade brasileira, atuando, dessa maneira, nas suas intersubjetividades. Para sustentar o argumento, o artigo está organizado em três blocos de análise inter-relacionados. Inicialmente, discorremos sobre a colonialidade moderna, que ainda persiste nas relações entre países periféricos e centrais. Em seguida, tendo como referência Hanna Arendt, problematizamos a potencialidade do mal banal a enredar e circunscrever o sistema colonial mediante a invisibilização da alteridade nas relações humanas. Finalizamos com o debate sobre os efeitos da violência colonial no Brasil, escamoteados mediante a circulação dos mitos da cordialidade e pacifismo da população brasileira e o da democracia racial, impondo esquecimentos de nossa história.

Palavras-chave


violência; contemporaneidade; intersubjetividade; mal.

Texto completo:

PDF/A

Referências


Adorno, T. (1995). Minima Moralia. São Paulo: Ática.

Almeida, M. V. L. (2018). A Lógica do espectro: Romance histórico, necromancia e o lugar do morto. Dissertação de Mestrado, Programa Literatura e Crítica Literária, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.

Almeida, S. (2018). O que é Racismo Estrutural. Belo Horizonte: Letramento.

Arendt, H. (1993). A Condição Humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária.

Arendt, H. (1999). Eichmann em Jerusalém, um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras.

IPEA. (2018). Atlas da violência. Recuperado de http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/relatorio_institucional/180604_atlas_da_violencia_2018.pdf

Bauman, Z. (2005). Vidas Desperdiçadas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Chauí, M. (2012). Democracia e sociedade autoritária. Revista Comunicação e Informação, 15(2), 149-161.

Fórum Brasileiro de Segurança Pública. (2019). Visível e invisível: A vitimização de mulheres no Brasil. Recuperado de http://www.forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2017/03/relatorio-pesquisa-vs4.pdf

Dussel, E. (2010). Meditações anticartezianas sobre a origem do anti-discurso filosófico da modernidade. In B. S. Santos & M. P. Meneses (Orgs), Epistemologias do Sul (pp. 341-395). Petrópolis: Vozes.

Fernandes, F. (2007). O Negro no Mundo dos Brancos. São Paulo: Global Editora.

Foucault, M. (1988). História da sexualidade I: A vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal.

Foucault, M. (2008). O Nascimento da Biopolítica. São Paulo: Martins Fontes.

Foucault, M. (2011). Ditos & Escritos V: Ética, Sexualidade, Política. Rio de Janeiro: Forense Universitária.

Gagnebin, J. M. (2010). O Preço de uma reconciliação extorquida. In E. Teles & W. Safatle (Org), O que Resta da Ditadura (pp. 77-187). São Paulo: Boitempo.

Instituto da Mulher Negra. (2017, Abril 4). Yasmin Costa e o Feminicídio que Mata mais Mulheres Negras no Brasil. Portal Gelédes. Recuperado de https://www.geledes.org.br/yasmin-costa-e-o-feminicidio-que-mata-mais-mulheres-negras -no--brasil/

Ginzburg, J. (2010). Escritas da Tortura. In E. Teles & W. Safatle (Org), O que Resta da Ditadura (pp. 33-150). São Paulo: Boitempo.

Grosfoguel, R. (2008). Para descolonizar os estudos de economia política e s estudos pós-coloniais: transmodernidade, pensamento de fronteira e colonialidade global. Revista Crítica de Ciências Sociais, 80, 115-147.

Guareschi, P. (2013). Pressupostos psicossociais da exclusão: competitividade e culpabilização. In B. B. Sawaia (Org), As artimanhas da exclusão: Análise psicossocial e ética da desigualdade social (4a ed., pp. 87-101). Petrópolis. Vozes.

Han, B. C. (2019). Sociedade da Transparência. Petrópolis: Vozes.

Lander, E. (2005). A Colonialidade do saber: Eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: Colección Sur-Sur.

Lacerda, L., De Luca, N., & Pamplona, N. (2019). Menina de oito anos morre baleada no Rio de Janeiro [Caderno Cotidiano]. Folha de S. Paulo. Recuperado de https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/09/menina-de-oito-anos-morre-baleada-no-rio-de-janeiro.shtml

Lima, F. (2018). Bio-necropolítica: Diálogos entre Michel Foucault e Achille Mbembe. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 70, 20-33.

Lugones, M. (2014). Rumo a um feminismo descolonial. Revista Estudos Feministas, 22(3), 935-952.

Maia, D. (2019). Menino torturado em mercado de SP é analfabeto, usuário de crack e filho de mãe alcoólatra [Caderno Cotidiano]. Folha de S. Paulo. Recuperado de https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/09/menino-torturado-em-mercado-de-sp-e-analfabeto-usuario-de-crack-e-filho-de-mae-alcoolatra.shtml

Maia, D. (2020). Tenho pesadelos e não entro em supermercado, diz homem torturado por seguranças em SP [Caderno Cotidiano]. Folha de S. Paulo. Recuperado de https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/01/tenho-pesadelos-e-nao-entro-em-supermercado-diz-homem-torturado-por-segurancas-em-sp.shtml

Mbembe, A. (2018). Crítica da Razão Negra. São Paulo: n-1.

Mignolo, W. (2010). Desobediencia epistémica: Retórica de la modernidad, lógica de la colonialidad y gramática de la descolonialidad. Buenos Aires: Ediciones del Signo.

Nunes, F. (2019). Garoto de 19 anos é sufocado por segurança em supermercado – Homem de 19 anos é morto por segurança em supermercado Extra no Rio. Agência Estado. Recuperado de https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2019/02/14/homem-de-19-anos-e-morto-por-seguranca-em-supermercado-extra-no-rio.htm

Quijano, A. (2010). Colonialidade do poder e classificação social. In B. S. Santos & M. P. Meneses (Orgs), Epistemologias do Sul (pp.84-130). Petrópolis: Vozes.

Quijano, A., & Wallerstein, I. (1992). Americanity as a concept, or de Americas in the modern world-system. International Social Science Journal, 44(4), 549-557.

Ribeiro, D. (2019). Pequeno manual antirracista. São Paulo: Companhia das Letras.

Santos, B.S. (2010). Para além do Pensamento Abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. In Santos, B. S. e Meneses, M.P. (Orgs). Epistemologias do Sul (pp. 31-83). Petrópolis: Vozes.

Santos, B. S. (2002). Crítica da Razão Indolente: Contra o desperdício da experiência. São Paulo: Cortez.

Santos, M. (2010). Por uma Nova Globalização: Do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record.

Schwarcz, L. (2019). Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras.

Sloterdijk, P. (2012). Crítica da razão cínica. São Paulo: Estação Liberdade, 2012.

Spivak, G. (2010). Pode o Subalterno Falar? Belo Horizonte: Ed. UFMG.

Tiburi, M. (2014). Filosofia Prática: Ética, vida cotidiana, vida virtual. São Paulo: Record.

Veloso, C., & Gil, G. (1969). Divino Maravilhoso. In Gal Costa [CD]. Rio de Janeiro: Universal Music.




DOI: https://doi.org/10.5020/23590777.rs.v20i3.e10750

Métricas do artigo

Carregando Métricas ...

Metrics powered by PLOS ALM


Licença Creative Commons
Este obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.
Revista Subjetividades, Fortaleza - Ceará- Brasil – E-ISSN: 2359-0777

Desenvolvido por:

Logomarca da Lepidus Tecnologia