Freud, a Alteridade e as Massas: aproximações

Raphael Santos das Mercês, Mauricio Rodrigues de Souza

Resumo


O objetivo do presente trabalho é destacar, a partir das concepções do senso comum, a especificidade da noção de alteridade em psicanálise e suas consequências éticas. Para tanto, partiu de uma pesquisa de cunho teórico que, iniciando pelo recurso a renomados dicionários da língua portuguesa, privilegiou em seguida um texto freudiano em particular. Trata-se de Psicologia das massas e análise do eu, o qual, pela via de conceitos como os de identificação e libido, traça uma via de pensamento que transita entre terrenos aparentemente tão díspares quanto aqueles do “individual” e do “coletivo”. À guisa de conclusão, pontua o quanto as definições de alteridade que constam nos dicionários aqui utilizados se aproximam de um ponto de vista psicanalítico na medida em que permitem um encaminhamento daquilo que representa o distinto ou diferente rumo ao inquietante ou estranhamente familiar referencial mediante o qual estes adjetivos se estabelecem como tais. Por outro lado, reconhece que esse aspecto relativo da diferença se defronta na prática com um poderoso obstáculo: aquele representado pela condição autocentrada do eu. Enfatiza então a perspectiva freudiana acerca da inter-relação entre eu e outro como possibilidade de superação de tal barreira na medida em que postula não a oposição absoluta, mas uma solução de continuidade entre o particular e o social.

Palavras-chave


alteridade; pensamento freudiano; psicologia das massas

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DOI: https://doi.org/10.5020/23590777.rs.v21i1.e10887

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