A norma do falo e a abjeção da mulher na psicanálise

Paula Gruman Martins

Resumo


Neste artigo, a autora analisa o lugar que “a mulher” ocupa em alguns extratos das obras de Freud e Lacan, tendo como ponto de partida o modelo do sexo único, tal como concebido por Thomas Laqueur. Ensaia-se demonstrar que, em muitos momentos, a psicanálise operou em um paradigma de um só sexo, a despeito da aparente centralidade do conceito de diferença sexual em suas teorias. A autora propõe que a importância conferida ao elemento fálico impede a psicanálise de pensar outras formas de subjetivação, em que o falo (anatômico ou simbólico) não seja tão central. A partir da ideia de que encontramos uma norma do falo reinando na psicanálise, as contribuições de Julia Kristeva e Judith Butler sobre a abjeção são utilizadas para pensar a fabricação do gênero feminino enquanto antípoda do fálico na teoria psicanalítica. Sustenta-se que uma subjetivação pensada pela falta do falo mantém “a mulher” em um lugar de inexistência e, mesmo, de abjeção.

Palavras-chave


abjeção, norma, falo, feminilidade, psicanálise.

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DOI: https://doi.org/10.5020/23590777.rs.v21i1.e10945

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