O Delírio além do Sintoma: Reflexões a partir da Teoria da Subjetividade

Renata Fernandes Mourão, Daniel Magalhães Goulart

Resumo


Este artigo parte de uma crítica ao conceito de delírio na perspectiva psiquiátrica hegemônica, de modo a propor sua definição a partir de uma base teórico-conceitual diversa: a teoria da subjetividade na perspectiva cultural-histórica de González Rey. A partir dessa perspectiva teórica, torna-se possível desconstruir o conceito de patologia e avançar na compreensão do transtorno mental como configuração subjetiva de um conflito, social e historicamente situado. Nesse sentido, esse referencial teórico permite gerar inteligibilidade sobre processos singulares individuais e sociais que se articulam no delírio, de forma a legitimá-lo enquanto fonte de conhecimento científico e como dimensão a ser considerada nos processos de atenção à saúde mental. Tal compreensão abre a possibilidade para considerar a dimensão potencialmente criativa do delírio, constituindo-se em produção possivelmente articulada a processos de desenvolvimento subjetivo, para além de um déficit comportamental relativo a uma suposta norma idealizada.

Palavras-chave


Delírio; Transtorno Mental; Subjetividade; Teoria da Subjetividade; Desenvolvimento Subjetivo

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DOI: http://dx.doi.org/10.5020/23590777.rs.v19i3.e7391

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Revista Subjetividades, Fortaleza - Ceará- Brasil – E-ISSN: 2359-0777

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