“Projeto de Ser” como Fundamento Epistemológico para Práticas em Saúde Coletiva

Daniela Ribeiro Schneider, Adria de Lima Sousa, Charlene Fernanda Thurow, Claudia Daiana Borges, Gabriela Rodrigues, Juliana Cantele, Milene Strelow, Virginia Lima dos Santos Levy, Priscila Tomasi Torres

Resumo


O conceito de projeto de ser é central na obra de Jean-Paul Sartre e aspecto essencial da psicologia existencialista. Sartre toma essa temática da fenomenologia, que aborda a questão do projeto como uma dimensão importante da temporalidade do sujeito, na dinâmica que envolve o futuro. O existencialista aborda essa noção com diferentes designações ao longo de suas obras: projeto fundamental, projeto original e projeto de ser. Esses termos são sinônimos e utilizados em diferentes partes de sua elaboração teórica para elucidar aspectos que se colocam como mais relevantes para cada contexto. Neste ensaio teórico, desenvolvido por meio de uma revisão narrativa da literatura, com base nas obras do próprio Sartre ou de estudiosos e comentadores do filósofo, será utilizado o termo “projeto de ser”, dado que o desafio do método clínico existencialista consiste, justamente, no desvelamento do ser do sujeito, compreendido como ser-no-mundo. Objetiva-se desenvolver a compreensão desse conceito em sua aplicabilidade instrumental no campo da saúde. Para tanto, desenvolve-se a relação desse conceito com os princípios da saúde coletiva - como a questão da integralidade, da territorialidade, da promoção de saúde, da prevenção e do cuidado psicossocial - e suas contribuições para a inteligibilidade de fenômenos, particularmente o sofrimento psíquico e as psicopatologias. Discute-se que alguns conceitos existencialistas podem servir como fundamento epistêmico para a proposta de uma clínica ampliada, constituindo uma contribuição teórica e metodológica para a área.

Palavras-chave


projeto de ser; Jean-Paul Sartre; psicologia existencialista; saúde coletiva; atenção psicossocial.

Texto completo:

PDF/A

Referências


Alves, V. S. (2004). Um modelo de educação em saúde para o Programa Saúde da Família: Pela integralidade da atenção e reorientação do modelo assistencial. Interface, 9(16), 39-52.

Ayres, J. R. C. M. (2009). Cuidado: Trabalho e interação nas práticas de saúde. Rio de Janeiro: Editora do Centro de Estudos e Pesquisa em Saúde Coletiva.

Barcellos, C. (2008). Problemas emergentes da saúde coletiva e a revalorização do espaço geográfico. In A. C. Miranda, C. Barcellos, J. C. Moreira & M. Monken (Orgs.), Território, ambiente e saúde (pp. 44-55). Rio de Janeiro: Fiocruz.

Bertolino, P. (2008). Modelo da constituição da atmosfera humana. Link

Boccardo, A., Zane, F., Rodrigues, S., & Mângia, E. (2011). O projeto terapêutico singular como estratégia de organização do cuidado nos serviços de saúde mental. Revista de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo, 22(1), 85-92. DOI: 10.11606/issn.2238-6149.v22i1p85-92

Carnut, L. (2017). Cuidado, integralidade e atenção primária: Articulação essencial para refletir sobre o setor saúde no Brasil. Revista Saúde Debate, 41(115). DOI: 10.1590/0103-1104201711515

Castro, F. C. L. (2011). Dialética e hermenêutica no Idiota da Família de Sartre. Intuitio, 4(1), 03-14. Recuperado de http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/intuitio/article/view/9264/6383

Castro, F. G., & Ehrlich, I. F. (2016). Introdução à psicanálise existencial: Existencialismo, fenomenologia e projeto de ser. Curitiba: Juruá Editora.

Cecílio, L. C., & Merhy, E. E. (2007). A integralidade do cuidado como eixo da gestão hospitalar. In R. Pinheiro & R. A. Mattos (Orgs), Construção da integralidade: Cotidiano, saberes e práticas em saúde (pp. 199-212). Rio de Janeiro: UERJ.

Costa-Rosa, A., Luzio, C. A., & Yasui, S. (2003). Atenção psicossocial: Rumo a um novo paradigma na saúde mental coletiva. In P. Amarante (Ed.), Arquivos de saúde mental e atenção psicossocial (pp. 13-44). Rio de Janeiro: NAU Editora.

Czeresnia, D. (2003). O conceito de saúde e a diferença entre prevenção e promoção. In D. Czeresnia & C. M. Freitas (Org.), Promoção da saúde: Conceitos, reflexões, tendências (pp.39-54). Rio de Janeiro: Fiocruz.

Da Ros, M. A. (2006). Políticas públicas de saúde no Brasil. In M. Bagrichevkky, A. Palma, A. Estevão & M. Da Ros (Orgs.), A saúde em debate na educação física (vol. 2, pp. 47-66). Blumenau: Nova Letra.

Dahlgren, G., & Whitehead, M. (1991). Policies and strategies to promote social equity in health. Stockholm: Institute for Futures Studies. Link

Fischer, G. (1994). Psicologia social do ambiente. Lisboa: Instituto Piaget.

Grigolo, T. M., & Pappiani, C. (2014). Clínica ampliada: Recursos terapêuticos dos Centros de Atenção Psicossocial de um município do norte de Santa Catarina. Cadernos Brasileiros de Saúde Mental, 6(14), 01-26. Link

Hafner, M. L. M. B., Moraes, M. A. A., Marvulo, M. M. L., Braccialli, L. A. D., Carvalho, M. H. R., & Gomes, R. (2010). A formação médica e a clínica ampliada: Resultados de uma experiência brasileira. Ciência & Saúde Coletiva, 15, 1715-1724. DOI: 10.1590/S1413-81232010000700083

Kalichman, A. O., & Ayres, J. R. C. M. (2016). Integralidade e tecnologias de atenção à saúde: Uma narrativa sobre contribuições conceituais à construção do princípio da integralidade no SUS. Cadernos de Saúde Pública, 32(8), e00183415. DOI: 10.1590/0102-311X00183415

Levy, V. L. S. (2017). Narrativas de usuários de crack: O dizer sobre si e o mundo através do audiovisual. Rio de Janeiro: Multifoco.

Lima, E. M. F. de A., & Yasui, S. (2014). Territórios e sentidos: Espaço, cultura e cuidado na atenção em saúde mental. Saúde em Debate, 38(102), 296-300. DOI: 10.5935/0103-1104.20140055

Maheirie, K., & Pretto, Z. (2007). O movimento progressivo-regressivo na dialética universal e singular. Revista do Departamento de Psicologia da UFF, 19(2), 455-462. DOI: 10.1590/S0104-80232007000200014

Mendes, E. V. (2011). As redes de atenção à saúde. Brasília: OPAS.

Ministério da Saúde [MS]. (2006). Portaria nº 648, de 28 de março de 2006. Aprova a Política Nacional de Atenção Básica, estabelecendo a revisão de diretrizes e normas para a organização da atenção básica para o Programa Saúde da Família (PSF) e o Programa Agentes Comunitários de Saúde (PACS). Brasília: Ministério da Saúde.

Ministério da Saúde [MS]. (2009). Humaniza SUS: Clínica ampliada e compartilhada [Série B. Textos Básicos de Saúde]. Brasília: Ministério da Saúde.

Osmo, A., & Schraiber, L. B. (2015). O campo da saúde coletiva no Brasil: Definições e debates em sua constituição. Saúde e Sociedade, 24 (Supl. 1), 205-218. DOI: 10.1590/S0104-12902015S01018

Prates, M. (2017). Entre a fenomenologia e a psicanálise: A noção de proto-história e vivência em Sartre. In F. C. L. Castro, & M. S. Norberto (Orgs.), Sartre hoje (Vol. 2, pp 217-241). Porto Alegre: Editora Fi.

Pettres, A. A., & Da Ros, M. A. (2018). A determinação social da saúde e a promoção da saúde. Arquivos Catarinenses de Medicina, 47(3), 183-196. Link

Pretto, Z., Langaro, F., & Santos, G. B. (2009). Psicologia clínica existencialista na atenção básica à saúde: Um relato de atuação. Psicologia: Ciência e Profissão, 29(2), 394-405. Link

Rother, E. T. (2007). Revisão sistemática X revisão narrativa. Acta Paulista de Enfermagem, 20(2), 5-6. DOI: 10.1590/S0103-21002007000200001

Sales, A. C. (2008). O ser-no-mundo e o cuidado humano: Concepções heideggerianas. Revista Enfermagem UERJ, 16(4), 563-568. Link

Santos, M. (2006). A natureza do espaço: Técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.

Santos, M. (2011). O dinheiro e o território. In M. P. Oliveira, R. Haesbaert & R. Moreira (Eds.), Território, territórios: Ensaio sobre o ordenamento territorial (pp. 13-21). Rio de Janeiro: Lamparina.

Sartre, J. P. (1987). O existencialismo é um humanismo (Coleção Os pensadores, 3a. ed.). São Paulo: Nova Cultural. (Originalmente publicado em 1946)

Sartre, J. P. (1997). O ser e o nada: Ensaio de fenomenologia ontológica (5a ed.). Rio de Janeiro: Vozes. (Originalmente publicado em 1943)

Sartre, J. P. (2002a). Crítica da razão dialética: Precedido por questões de método. Rio de Janeiro: DP&A. (Originalmente publicado em 1960)

Sartre, J. P. (2002b). Saint Genet: Ator e mártir. São Paulo: Vozes. (Originalmente publicado em 1952)

Sartre, J. P. (2013). O idiota da família: Gustave Flaubert de 1821 a 1857 (Vol. 1). Porto Alegre: L&PM. (Trabalho original publicado em 1971)

Schneider, D. R. (2006). Liberdade e dinâmica psicológica em Sartre. Natureza humana, 8(2), 283-314. Link

Schneider, D. R. (2011). Sartre e a psicologia clínica. Florianópolis: Ed. UFSC.

Schneider, D. R. (2015). Da saúde mental à atenção psicossocial: Trajetórias da prevenção e da promoção de saúde. In S. G. Murta, C. Leandro-França, K. B. Santos, & L. Polejack (Eds.), Prevenção e promoção em saúde mental: Fundamentos, planejamento e estratégias de intervenção (pp. 34-53). Novo Hamburgo: Sinopsys.

Serpa Junior, O. D., Leal, E. M., Louzada, R. C. R., & Silva Filho, J. F. (2007). A inclusão da subjetividade no ensino da psicopatologia. Interface - Comunicação, Saúde, Educação, 11(22), 207-222. DOI: 10.1590/S1414-32832007000200003

Silva, M. J. S. (2017). O conceito de saúde na saúde coletiva: Contribuições a partir da crítica social e histórica à tomada do corpo e seu adoecimento na medicina da modernidade. Tese de doutorado, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, São Paulo.

Silva-Arioli, I. G., Schneider, D. R., Barbosa, T. M., & Da Ros, M. A. (2013). Promoção e educação em saúde: Uma análise epistemológica. Psicologia, Ciência e Profissão, 33(3), 672-87.

Souza, C. L., & Andrade, C. S. (2014). Health, environment and territory: A necessary discussion in health training. Ciência & Saúde Coletiva, 19(10), 4113-4122. DOI: 10.1590/1413-812320141910.08992014

Starfield, B. (2002) Atenção primária: Equilíbrio entre a necessidade de saúde, serviços e tecnologias. Brasília: Unesco.

Tesser, C. D. (2006). Medicalização social (II): Limites biomédicos e propostas para a clínica na atenção básica. Interface, 10(20), 347-362. DOI: 10.1590/S1414-32832006000200006

Vieira Junior, C. A., Ardans-Bonifacino, H. O., & Roso, A. (2016). A construção do sujeito na perspectiva de Jean-Paul Sartre. Revista Subjetividades, 16(1), 119-130. DOI: 10.5020/23590777.16.1.119-130




DOI: https://doi.org/10.5020/23590777.rs.v21iEsp1.e9442

Métricas do artigo

Carregando Métricas ...

Metrics powered by PLOS ALM


Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada sob uma licença Creative Commons Atribuição - Não comercial - Compartilhar igual 4.0 Internacional.

Licença Creative Commons
Este obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.
Revista Subjetividades, Fortaleza - Ceará- Brasil – E-ISSN: 2359-0777

Desenvolvido por:

Logomarca da Lepidus Tecnologia