O Cuidado com a Criança na Clínica Fenomenológico-Existencial

Lívia Grijó Halfeld, Cristine Monteiro Mattar

Resumo


Neste artigo buscamos refletir sobre o cuidado clínico com crianças baseado na analítica do Da-sein de Martin Heidegger e na psicologia fenomenológico-existencial. Iniciamos com uma breve retomada histórica do surgimento da noção de infância. Em seguida, analisamos existencialmente o sercriança do ponto de vista filosófico, tomando como referência a fenomenologia hermenêutica empreendida em Ser e Tempo. A criança, tal como todo ente humano, possui o modo de ser do Da-sein, ser-aí. Sendo-no-mundo, está desde sempre e de início na disposição e compreensão das orientações e interpretações já dadas e sedimentadas pela tradição. Em nosso tempo, a doação de sentido que já nos dispõe como ente utilizável é desvelada como a técnica moderna. No horizonte da técnica, a criança, assim como todos nós, é convocada desde sempre a render, a produzir resultados que já estão definidos a priori. Ao corresponder ou não a este apelo, podem surgir os chamados problemas de adaptação ou desenvolvimento, considerados falhas neste horizonte epocal. Frente a esses problemas, o psicólogo clínico é chamado a ajustar o que “não vai bem”, ocupando um lugar que poderá ser o de adaptador ao modo técnico calculante ou o da meditação serena sobre ele. Nossa aposta é nessa segunda opção, em uma prática de cuidado antepositivo-libertador que, com a criança e sua família, busque ampliar as compreensões ali em jogo, permitindo que novos sentidos e possibilidades de lida com o existente nessa fase da vida possam vir à luz sem a rigidez dos enquadres identitários que vigoram em nosso tempo. Iniciamos o artigo com uma seção que procura ir além do registro historiográfico do fenômeno infância; introduzimos uma análise ontológico-fundamental do fenômeno; propomos modos possíveis de cuidado com a criança, destacando-se a lida na clínica psicológica, que não estejam cegamente entregues ao uso técnico; e, por fim, narramos uma situação clínica.

Palavras-chave


cuidado; criança; clínica; fenomenologia; Heidegger.

Texto completo:

PDF/A

Referências


Ariès, P. (2006). História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Cabral, A. M. (2009). Heidegger e a destruição da ética. Rio de Janeiro: UFRJ; Mauad.

Casanova, M. (2017). A falta que Marx nos faz. Rio de Janeiro: Via Verita.

Feijoo, A. M. L. C. (1997). Aspectos teórico-práticos na ludoterapia. Fenômeno Psi, 1, 4-11.

Feijoo, A. M. L. C., Protásio, M. M., & Gill, D. (2015). Considerações sobre o desenvolvimento infantil em uma perspectiva existencial. In A. M. L. C. Feijoo & E. L. Feijoo (Orgs.), Ser criança: Uma compreensão existencial da experiência infantil (pp. 115-164). Rio de Janeiro: IFEN.

Heidegger, M. (2000). Serenidade. Lisboa: Instituto Piaget. (Originalmente publicado em 1959)

Heidegger, M. (2001). Seminários de Zollikon. São Paulo: EDUC; Petrópolis, RJ: Vozes. (Originalmente publicado em 1987)

Heidegger, M. (2007). A questão da técnica. Scientiæ studia, 5(3), 375-98.

Heidegger, M. (2009). Introdução à filosofia (2a ed.). São Paulo: Editora WMF Martins Fontes. (Originalmente publicado em 1996)

Heidegger, M. (2014). Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes. (Originalmente publicado em 1927).

Lei nº 4.119 de 27 de agosto de 1962. Dispõe sobre os cursos de formação em psicologia e regulamenta a profissão de psicólogo. Link

Mattar, C. M. (2010). Três perspectivas em psicoterapia infantil: Existencial, não-diretiva e Gestalt-terapia. Contextos Clínicos, 3, 76-87.

Mattar, C. M. (2015). A criança e a família: Aspectos históricos e dilemas contemporâneos. In A. M. L. C. Feijoo & E. L. Feijoo (Orgs.), Ser criança: Uma compreensão existencial da experiência infantil (pp. 13-34). Rio de Janeiro: IFEN.

Mattar, C. M. (2017). Prefácio. Situação clínica e situação existencial. In A. M. L. C. Feijoo & E. L. Feijoo (Orgs.), Situações clínicas 2: infantil (pp. 7-16). Rio de Janeiro: IFEN.

Postman, N. (1999). O desaparecimento da infância. Rio de Janeiro: Graphia.

Sá, R. N. (2005). A analítica heideggeriana da existência em Ser e Tempo. In Instituto de Psicologia Fenomenológico–Existencial (Org.), V Jornada IFEN: Diferentes modos de compreensão da subjetividade. Rio de Janeiro: IFEN.

Sá, R. N. (2017). Para além da técnica: Ensaios fenomenológicos sobre psicoterapia, atenção e cuidado. Rio de Janeiro: Via Verita.

Santos, D. de G., & Sá, R. N. (2013). A existência como “cuidado”: Elaborações fenomenológicas sobre a psicoterapia na contemporaneidade. Revista da Abordagem Gestáltica, 19(1), 53-59.




DOI: https://doi.org/10.5020/23590777.rs.v21iEsp1.e9909

Métricas do artigo

Carregando Métricas ...

Metrics powered by PLOS ALM


Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada sob uma licença Creative Commons Atribuição - Não comercial - Compartilhar igual 4.0 Internacional.

Licença Creative Commons
Este obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.
Revista Subjetividades, Fortaleza - Ceará- Brasil – E-ISSN: 2359-0777

Desenvolvido por:

Logomarca da Lepidus Tecnologia